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“Perfeitamente, general, e com o nosso apoio.”

outubro 18, 2010

Gaveta de presidentes: eu vi JK votar no marechal Castello, para depois ser cassado (capítulo 1)

Por Ricardo Setti

A DEVOÇÃO DE MEU PAI A JK E BRASÍLIA EM OBRAS – A devoção de meu pai ao ex-presidente era tal que, em determinadas férias familiares, passadas em Goiás no longínquo julho de 1959, ele levou minha mãe e os cinco filhos para conhecer Brasília. Experiência absolutamente inesquecível para o moleque de 13 anos que eu era – uma cidade inteira sendo erguida do nada, um turbilhão de obras cobertas de poeira vermelha.

Naquele Brasil ainda primitivo, rural, que JK acelerou em todas as áreas, causava espanto e orgulho ver o exército de enormes bull-dozers – falava-se em mil – rugindo seus poderosos motores por todo lado, terraplenando o solo ressequido e vermelho do cerrado, preparando o terreno para construções, rasgando futuras avenidas e estradas.


© Ricardo Setti

A Esplanada dos Ministérios ainda em esqueleto, em junho de 1959. A foto foi tirada por mim, então com 13 anos de idade, na Brasília em obras
Numa capenga, rudimentar câmera Kapsa ganha de presente, fiz algumas fotos da obra gigantesca e grandiosa. Só sobrou a que está publicada acima – a Esplanada dos Ministérios, ainda um esqueleto. Também viviam a fase de concretagem os edifícios-sede da Câmara dos Deputados e do Senado, o Palácio do Planalto, a sede do Supremo Tribunal Federal.

A catedral e a torre de TV não passavam de esboços. O Alvorada, onde JK se hospedava, funcionava e foi devidamente visitado pela família, embasbacada.

Capítulo 2, final

FREQUENTES CONSULTAS AO RELÓGIO — A conversa seria cordial, mas as frequentes consultas do ex-presidente ao relógio irritaram Castello, que comentaria depois, abismado, que JK chegou a tirar do bolso um pente e ajeitar os cabelos.
O marechal sempre negou que tivesse ido à reunião para pedir o apoio ou qualquer coisa a JK, mas um dos coronéis que o acompanharam, Affonso Heliodoro, chegou a contar anos depois, em carta ao jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, amigo de Juscelino, que, ao se despedirem, o marechal perguntou a Juscelino, a quem chamou de “presidente”:

– Então, presidente, estou aprovado para a presidência?

JK respondeu:

– Perfeitamente, general, e com o nosso apoio.

Juscelino cumpriu o compromisso. Os militares, temerosos de sua popularidade, não. Seu mandato de senador seria cassado dois meses depois, a 8 de junho daquele 1964, e os direitos políticos suspensos por 10 anos.
Vendo aproximar-se a degola, o ex-presidente proferiu seu último e enérgico discurso no Senado cinco dias antes, a 3 de junho de 1964. Alertando que a nação vivia “sob os efeitos do terror” e declarando-se “vítima preferida da sanha liberticida” do regime, disse JK:  “Sinto uma perfeita correlação entre minha ação presidencial e a iníqua perseguição que me estão movendo”.

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