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Mais histórias de fotógrafos

dezembro 10, 2010

Olívio Lamas

Imagens que chocam


© Olívio Lamas

A pior besteira que o diretor do hospital Emílio Ribas fez, não foi permitir o acesso de Olívio Lamas às instalações, mas alertar que o quarto andar estava interditado. Acompanhado de um repórter que faria o texto, nosso personagem permaneceria uma semana visitando a unidade para uma reportagem sobre o setor hospitalar.
Enquanto percorria as áreas liberadas, observava atentamente a movimentação durante as trocas de turnos do pessoal médico e localizou no horário do almoço o momento propício para dar o bote. Ou seja, passar furtivamente pelos corredores, “na ponta dos pés”, iludindo a vigilância preocupada, para ganhar o piso proibido, por isso cobiçado.
“Os quartos tinham umas janelinhas. Olhei o primeiro, com duas pessoas, o segundo também com pouca gente, e o terceiro onde havia quatro pacientes. Abri a porta e entrei”, conta. Um paciente em particular chamou a atenção. Ele conferiu a abertura e velocidade, mirou a lente, fez o foco e clic, clic… Estava feita a foto que lhe daria os prêmios Esso de Jornalismo, Fenaj, Kodak e Herzog de Direitos Humanos – a primeira imagem de um portador de AIDS em estado terminal.
No quinto ou sexto disparo, surgiu uma enfermeira apavorada, se descabelando e gritando que ele não podia fazer aquilo. “Mas eu tenho autorização”, alegou, dando uma de João-sem-braço. “Mas esse andar está interditado”, repetiu a agora possessa profissional da saúde, enquanto Lamas saía de fininho com um “me perdi de andar”. Segundo Lamas, “íamos ficar uma semana e isso aconteceu no quarto dia. Nunca mais voltei ao hospital”.
“Chocante”. Foi o que lhe disseram editores em diferentes redações. Chocante, mas ninguém queria publicar. “Chocante demais”, asseverou um. Até que a revista Imprensa, então do jornalista Paulo Markum, publicou a foto em página inteira, abrindo o caminho para a conquista dos quatro prêmios e a consagração de uma carreira profissional. Corria o ano de 1988.

Retrato 3 x 4 de um fotógrafo

Na década de 1980, como chefe da sucursal da Editora Abril em Porto Alegre, tive o privilégio de trabalhar com a menor e certamente mais talentosa equipe de fotografia da imprensa brasileira. Na cobertura de revistas como Veja, Placar, Quatro Rodas, Exame e outras, eu comandava um dream team integrado simplesmente por Ricardo Chaves, Leonid Streliaev, JB Scalco e Olívio Lamas.
Mais do que fotógrafos talentosos, eram repórteres de faro aguçado, olhar atento, visão privilegiada, o que tornava o trabalho dos repórteres de texto bem mais produtivo e gratificante.
Lamas fazia parte desse quarteto fantástico. Com sua barba negra de pirata do Caribe e olhar de águia, ajudava a enfrentar, com coragem e talento, as armadilhas e tensões daqueles anos de chumbo, semeados de censura, repressão e violência. Mas a presença sempre firme de Lamas nos ajudava a atropelar o medo. Seu clic firme ultrapassava qualquer restrição. O talento puro justificava todo o espaço e impacto da foto.

PS: Essa nota começa em “As histórias de fotografias históricas”
A história saiu no blog “Los Pantones” de José Pequeno, que recebeu um mail de um leitor, lembrando da foto de Olívio Lamas.

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  1. Wank Carmo permalink
    dezembro 11, 2010 12:52 am

    D+! Isso é fotojornalismo puro!

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