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Bem-vindo ao Admirável Mundo Novo!

dezembro 17, 2010

Via Ed Ferreira

Brasília, meio século entre a utopia e as ruínas modernas
Ainda que tenha sido projetada por dois ateus, Brasília é alardeada pelos sites administrativos da capital como uma cidade de “vocação mística”, nascida há 50 anos sob o signo da cristandade. Eles lembram que Dom Bosco anteviu num sonho a “terra prometida” – igualzinha como está lá, com seus dois eixos formando em ângulo reto o sinal da cruz. O sonho do fundador da congregação dos salesianos foi registrado em 1883, seis décadas depois de José Bonifácio de Andrada e Silva ter proposto a criação da capital no interior do País, sugerindo para ela o nome Brasília – embora se diga que a ideia não partiu dele, mas sim dos inconfidentes.

Mundo novo

Muitas dessas imagens foram encomendadas por Juscelino para assegurar a cobertura do andamento dos trabalhos e registrar a presença de celebridades internacionais que testemunharam a concretização da modernidade arquitetônica em pleno cerrado. O escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), autor do profético Admirável Mundo Novo (1932), foi um deles. Ele definiu sua viagem de Ouro Preto para Brasília como “uma jornada do passado para o futuro, do acabado para o que está para começar”. E o que estava para começar foi uma grande seca no Nordeste, justamente no ano de sua visita, 1958, atraindo para a capital uma leva de migrantes esfomeados. Um ano depois de Huxley passar por Brasília, a nova capital tinha 60 mil candangos acampados de forma improvisada em barracas do Exército e barracos. Já os técnicos foram instalados na Vila Planalto, ocupando casas que pareciam saídas do subúrbio americano. Nada especial, mas melhores que os alojamentos da Candangolândia.
O Itamaraty é apontado por nove entre dez críticos como o mais belo projeto de Niemeyer em Brasília. Também por isso é um dos mais fotografados. “Há um refinamento técnico em sua construção que ainda hoje é referência”, observa Mammì, que não gosta da catedral projetada por Niemeyer, considerada por ele “muito retórica”. De fato, ela já começa por se afastar do centro, ocupando o lado sul da Esplanada dos Ministérios e fugindo da tradição colonial, reforçando assim a separação Estado-Igreja. Mammì considera o prédio do Supremo Tribunal Federal o trabalho de maior peso do arquiteto em Brasília, toda ela uma cidade tomada por símbolos, como se fosse um sítio arqueológico hoje examinado como uma ruína moderna. O primeiro desses símbolos é o próprio plano piloto, formado pela superposição de uma cruz e um avião – a cruz simbolizando a posse do território pelo colonizador, como assumiu o urbanista Lúcio Costa, e o avião como imagem tradutora do futuro no horizonte da cidade.

A imagem do primeiro cinema de Brasília que ilustra esta página (foto maior), registrada pelo fotógrafo francês Marcel Gautherot (1910-1996), traduz à perfeição o silêncio como contraponto do inferno urbano carioca. Gautherot, cujo acervo é guardado pelo Instituto Moreira Salles, foi o fotógrafo que melhor registrou a monumentalidade da arquitetura de Niemeyer. O francês passou dois anos em Brasília a convite de JK e trouxe de lá 7 mil negativos na bagagem, entres eles o impressionante registro da construção das cúpulas do plenário do Senado Federal e da Câmara dos Deputados.


© Marcel Gautherot

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